Não é Imitação
É perspectiva com olhar de ser humano
Nunca acreditei nesse negócio de impostor na arte. Como se fosse a fraude do século. Existem obviamente os seres que dão control C control V descaradamente em qualquer coisa.
E isso não só nas artes, mas em toda vida. Inclusive, existem amores copiados.
São copistas mercenários, gananciosos do poder que não têm alma para o mundo artístico, e devem ser desprezados.
Mas dizer que os verdadeiros artistas têm de ser única e exclusivamente sur l'originalité, eu prefiro ficar com Paul Valéry, e dizer que nada é mais autêntico do que se alimentar dos outros.
Podemos até nascer originais, na maldade e na bondade, mas não é a sociedade que nos corrompe para gostarmos de beber na fonte a ponto de sermos quase cópias artísticas.
Somos nós mesmos os corrompedores, que vemos o mesmíssimo belo singular da arte através do nosso próprio olhar. E o belo não está no que o antecessor, vaidosamente ou ingenuamente, fixou como obra-prima.
O belo está quase que na metafísica, sem amarras nesse plano terrestre.
Portanto, somos como Platão fora da caverna no que concerne à criação artística, conseguimos explorar tudo sem mesmo ter conhecido os alicerces para supostamente basearmos nossa inovação.
Criar artisticamente é simplesmente afeição, gosto, um approach sincero com a primeira causa de tudo, e isso não implica necessariamente querer dizer que temos o embasamento empírico da obra artística universal.
Falo pela literatura, por exemplo, de onde muitas histórias parecem iguais, porém têm sua própria alma. Até porque não existe uma humanidade em constante mudança, como apregoam os otimistas. Desde os Deuses do Olimpo, fitamos as suas qualidades e seus defeitos, mais exagerados e exacerbados nos humanos que são seus pupilos (e por que não dizer discípulos?), e disso resultam os mais incríveis textos da face da Terra.
E depois disso? O psicológico mudou? Nunca! Continua igual, e nesse aspecto, puro e simples, como ser o diferente se a cabeça do homem nunca muda?
Não é copiar, é se embriagar dos ares literários, é sorver o orvalho da escrita, que está aí pra quem quiser ser artista.
Não é imitação, é desenvolvimento de possibilidades dentro do aspecto comum que nunca se transformou. É perspectiva com o olhar de ser humano.
Se não há mudança, se não há originalidade, por que então ser artista? Porque a verve não vem do primitivo, a meu ver. Vem da graça, da essência viva do status quo que tanto nos diverte( a mim pelo menos), para bem ou para mal. É imaginar coisas ainda olhando para a mesma rua, de trezentos anos atrás. Com os mesmo detalhes, mas com a iluminação natural do céu que só o indivíduo, único e solitário, enxerga bem.
Alguns dirão, depois de tudo isso dito, que nada mais natural do que citar Lavoisier e Chacrinha na mesma frase. Porém, não é tão simples assim. Nesse caso fico mais com o químico francês, que entendeu melhor os recursos da transformação diante dos fatos. Eu não ponho palavras na boca, mas direita que Lavoisier pensaria que: a Terra está girando, mas Nunca de forma igual, mesmo que o espaço tempo diga o contrário. Complementando, ele diria: há tantos elementos nessa Terra que não podemos frisar somente o mesmo foco, ou sinalizar o mesmo ponto.
Tudo muda, mesmo permanecendo igual.
E isso, é o mote mais elucidador de toda cadeia artística que se possa imaginar, na minha opinião.
No fim das contas, é isso, eu sou um artista, um escritor que gosta do idêntico, do igual, mas com olhar da pessoa que nunca é semelhante nem de longe. Que vai pintar a base do quadro com a mesma cor, mas com pincéis diferentes; que vai moldar a escultura com as mesmas mãos, mas com força diferenciada. Eu sou o artista que não copia, mas gosta do que existe e acha que sempre há mais e mais para escrever sobre o mesmo assunto.


